
Futebol, diplomacia e relações bilaterais em jogo
Futebol, diplomacia e poder: Copa do Mundo, soft power e CACD
A Copa do Mundo costuma ser acompanhada pelo placar, pelos favoritos e pelas grandes narrativas esportivas. Para quem se prepara para o CACD, no entanto, ela também pode ser lida como um espaço de diplomacia pública, projeção internacional e exercício de soft power.
A edição de 2026 tem relevância especial por ser realizada em três países — Estados Unidos, Canadá e México — e por reunir 48 seleções. Esse formato amplia a dimensão política, econômica e simbólica do torneio, envolvendo governos, cidades-sede, patrocinadores, estruturas consulares, políticas migratórias e estratégias de imagem internacional.
A partir desse ponto de partida, o Atualiza & Revisa propõe uma leitura pelas lentes do CACD: menos centrada no futebol em si e mais voltada à conexão entre esporte, relações internacionais, política externa brasileira, História Mundial e Direito Internacional. Os estudos de caso são Marrocos e Haiti, dois países que ajudam a revisar temas recorrentes nas provas do Instituto Rio Branco.
A Copa do Mundo como instrumento de soft power
Grandes eventos esportivos funcionam como vitrines globais. Durante algumas semanas, bilhões de pessoas acompanham jogos, símbolos nacionais, cerimônias, imagens de cidades-sede, discursos oficiais e narrativas construídas pelos Estados.
Na chave teórica de Joseph Nye, esse processo se aproxima do conceito de soft power: a capacidade de influenciar por atração, persuasão e legitimidade, e não apenas por coerção militar ou incentivos econômicos.
Para a prova, é importante não tratar o soft power como substituto do poder militar ou econômico. A abordagem discutida no episódio reforça que os Estados combinam diferentes instrumentos de poder. Quando coerção, incentivos e atração são articulados estrategicamente, aproxima-se o conceito de smart power.
Por isso, a Copa do Mundo pode ser usada como exemplo de diplomacia pública, construção de imagem internacional, disputa de narrativas e projeção de prestígio. Para o CACD, o ponto central é transformar um acontecimento de grande visibilidade em repertório analítico para Política Internacional.
Marrocos: história, geopolítica e relações com o Brasil
O caso marroquino permite revisar temas de História Mundial, Política Internacional, Política Externa Brasileira e Direito Internacional. A relação diplomática formal entre Brasil e Marrocos costuma ser associada à abertura da Embaixada do Brasil em Rabat, em 1961, poucos anos após a independência marroquina. Mas os vínculos históricos são mais antigos.
Um exemplo é a transferência de famílias portuguesas de Mazagão, no litoral marroquino, para a Amazônia, em 1769, com a fundação da Vila Nova de Mazagão, no atual Amapá. Outro ponto de conexão foi a migração de judeus marroquinos para a Amazônia brasileira, especialmente no século XIX, durante o ciclo da borracha.
Na perspectiva histórica, o Marrocos também permite revisar a formação dos protetorados no Norte da África. Em 1912, o Tratado de Fez instituiu o Protetorado Francês sobre o Marrocos, enquanto acordos com a Espanha definiram zonas de protetorado espanhol. A independência marroquina foi recuperada em 1956, embora alguns territórios tenham permanecido sob administração espanhola por mais tempo.
Saara Ocidental e autodeterminação dos povos
A questão do Saara Ocidental é um dos pontos mais importantes do caso marroquino para o CACD. Em 1975, a Espanha firmou os Acordos de Madri, transferindo a administração do território ao Marrocos e à Mauritânia. As Nações Unidas, contudo, não reconheceram esses acordos como transferência de soberania.
Por isso, o Saara Ocidental permanece classificado como território não autônomo. A disputa envolve a reivindicação marroquina sobre a região e a atuação da Frente Polisário, movimento nacionalista saaraui apoiado principalmente pela Argélia, que proclamou a República Árabe Saaraui Democrática.
Desde 1991, a ONU mantém a MINURSO, missão criada para monitorar o cessar-fogo e apoiar a realização de um referendo de autodeterminação, ainda não realizado. Para a prova, esse caso permite articular descolonização, autodeterminação dos povos, organizações internacionais, União Africana e disputas territoriais contemporâneas.
Outro ponto relevante é a relação entre Marrocos e a organização continental africana: o país deixou a Organização da Unidade Africana em 1984, em protesto contra a admissão da República Árabe Saaraui Democrática, e retornou à União Africana em 2017.
Marrocos, mundo árabe e cooperação econômica
A posição geográfica marroquina também tem grande valor estratégico. O país está no noroeste da África, voltado para o Atlântico e para o Mediterrâneo, e ocupa uma das margens do Estreito de Gibraltar. Essa localização o transforma em ponte entre África, Europa e mundo árabe.
Para o Brasil, o Marrocos se insere em uma agenda de diversificação de parcerias internacionais. A aproximação com países árabes, inclusive por meio da Cúpula América do Sul–Países Árabes, lançada em 2005, aparece como parte desse esforço de ampliar vínculos políticos, econômicos e de cooperação.
No comércio bilateral, a complementaridade é central: o Brasil exporta produtos agropecuários, como açúcar, milho e carnes, enquanto importa fosfatos e fertilizantes. Esse ponto conecta o tema à segurança alimentar, ao agronegócio brasileiro e à estabilidade de cadeias globais de suprimentos.
Outro elemento importante é o Acordo de Cooperação e Facilitação de Investimentos, assinado em 2019. O ACFI representa um modelo brasileiro que privilegia prevenção de controvérsias, diálogo institucional e mecanismos permanentes de facilitação, em vez de priorizar a arbitragem investidor-Estado típica de tratados tradicionais de proteção de investimentos.
Haiti: operações de paz, cooperação e política externa brasileira
Se o Marrocos ajuda a revisar a diversificação de parcerias brasileiras, o Haiti é um estudo de caso essencial para compreender a projeção internacional do Brasil no início do século XXI.
As relações diplomáticas entre Brasil e Haiti foram estabelecidas em 1928, mas o ponto de inflexão ocorreu em 2004, quando o Brasil assumiu o comando militar da MINUSTAH, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti.
A participação brasileira na missão deve ser entendida no contexto de fortalecimento do multilateralismo, ampliação da presença do Brasil em operações de paz da ONU e defesa de maior participação dos países em desenvolvimento na governança internacional.
A MINUSTAH foi criada após a crise política que culminou na saída do presidente Jean-Bertrand Aristide. Para a prova objetiva, um detalhe relevante é que a missão foi autorizada pelo Conselho de Segurança com fundamento no Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, relativo a ameaças à paz e à segurança internacionais.
Após o terremoto de 2010, a missão passou a lidar com novas prioridades humanitárias, incluindo proteção da população civil, apoio à reconstrução e coordenação com organismos internacionais. A MINUSTAH foi encerrada em 2017, sendo sucedida por missões voltadas ao fortalecimento institucional e ao apoio ao Estado haitiano.
Cooperação, migrações e diplomacia humanitária
O caso haitiano também permite revisar cooperação para o desenvolvimento. A atuação brasileira envolveu projetos nas áreas de saúde, agricultura, capacitação profissional e fortalecimento institucional, com destaque para o papel da Agência Brasileira de Cooperação.
Após o terremoto de 2010, a cooperação técnica ganhou importância ainda maior diante da pobreza, da insegurança alimentar e da fragilidade institucional do país. Para provas discursivas, o Haiti permite discutir como a cooperação internacional pode ir além da assistência emergencial, incorporando transferência de conhecimento, fortalecimento institucional e desenvolvimento sustentável.
Outro desdobramento foi o aumento da migração haitiana para o Brasil. A partir de 2012, o governo brasileiro passou a conceder vistos humanitários a cidadãos haitianos, o que abriu espaço para debates sobre migração internacional, integração social, políticas públicas e proteção humanitária.
Na História Mundial, o Haiti ocupa posição singular: em 1804, tornou-se a primeira república negra independente das Américas e o único Estado moderno criado a partir de uma revolução bem-sucedida de pessoas escravizadas. Esse processo ultrapassa a história caribenha e dialoga com temas como escravidão, colonialismo, independência, cidadania e igualdade no mundo atlântico.
Como estudar esse tema na preparação para o CACD?
Na preparação para o CACD, esse tema deve ser estudado de forma transversal. Em Política Internacional, a Copa do Mundo ajuda a revisar soft power, diplomacia pública, smart power, cooperação Sul-Sul, multilateralismo e projeção internacional dos Estados.
Além disso, a conexão com Política Externa Brasileira, Marrocos e Haiti permitem compreender estratégias distintas da inserção internacional do Brasil: diversificação de parcerias, aproximação com o mundo árabe, diplomacia econômica, atuação em operações de paz e cooperação técnica.
No campo do Direito Internacional, por sua vez, os pontos centrais são autodeterminação dos povos, territórios não autônomos, atuação das Nações Unidas, Capítulo VII da Carta da ONU e modelos de acordos internacionais, como os ACFIs.
Já em História Mundial, o conteúdo permite revisar protetorados, descolonização, Revolução Haitiana, colonialismo, independência e impactos políticos do mundo atlântico.
Por fim, para construir base, os Cursos Teóricos do IDEG ajudam a organizar os fundamentos de cada disciplina. O Atualiza & Revisa contribui para atualizar repertório e conectar teoria, conjuntura e prova. Já a Assinatura de Exercícios apoia a revisão constante, a fixação dos temas e o treino por questões no padrão exigido pelo CACD.
Como o tema pode aparecer na prova
A Copa do Mundo pode aparecer como exemplo de soft power, diplomacia pública e construção de imagem internacional dos Estados. O ponto não é o evento esportivo isoladamente, mas sua capacidade de mobilizar símbolos, narrativas, fluxos econômicos, turismo, visibilidade internacional e estratégias de prestígio.
O Marrocos pode ser cobrado em questões sobre Saara Ocidental, autodeterminação dos povos, descolonização, Frente Polisário, MINURSO, União Africana, mundo árabe, cooperação Sul-Sul, segurança alimentar e relevância estratégica dos fosfatos para o Brasil.
O Haiti, por sua vez, é um caso forte para operações de paz, MINUSTAH, Capítulo VII da Carta da ONU, cooperação para o desenvolvimento, migrações internacionais, diplomacia humanitária, Revolução Haitiana e política externa brasileira no início do século XXI.
Mais do que memorizar datas, o desafio é conectar acontecimentos concretos aos grandes conceitos das Relações Internacionais. Essa capacidade de articulação é decisiva tanto nas questões objetivas quanto nas discursivas.
Questões objetivas para revisar o tema
As questões abaixo ajudam a revisar os principais pontos discutidos no conteúdo e a treinar a leitura atenta exigida no CACD. Tente responder antes de abrir o gabarito comentado.
Questão 1
A transferência da administração do Saara Ocidental pela Espanha ao Marrocos e à Mauritânia, nos Acordos de Madri de 1975, foi reconhecida pela ONU como transferência de soberania, o que retirou da agenda das Nações Unidas a realização de um referendo de autodeterminação para o território.
Questão 2
A participação brasileira na MINUSTAH esteve associada ao fortalecimento do multilateralismo e à ampliação da presença do Brasil em operações de paz das Nações Unidas.
Questão 3
Os Acordos de Cooperação e Facilitação de Investimentos, desenvolvidos pela diplomacia brasileira, diferenciam-se dos tratados tradicionais de proteção de investimentos por privilegiarem mecanismos de prevenção de controvérsias e diálogo institucional entre as partes.
Principais pontos de revisão
- A Copa do Mundo pode ser analisada como instrumento de soft power, diplomacia pública e projeção internacional.
- Soft power não substitui hard power; os Estados podem combinar atração, coerção e incentivos em estratégias de smart power.
- O Marrocos permite revisar protetorados, descolonização, Saara Ocidental, autodeterminação dos povos e União Africana.
- As relações Brasil–Marrocos envolvem vínculos históricos, aproximação com o mundo árabe, comércio bilateral e fertilizantes.
- O ACFI é um modelo brasileiro voltado à facilitação de investimentos, diálogo institucional e prevenção de controvérsias.
- O Haiti é caso central para operações de paz, MINUSTAH, Capítulo VII da Carta da ONU, cooperação técnica e diplomacia humanitária.
- A migração haitiana para o Brasil permite discutir vistos humanitários, integração social e proteção de migrantes.
- A Revolução Haitiana é tema relevante de História Mundial, com impactos sobre escravidão, colonialismo, independência e cidadania.
Ouça também no Atualiza & Revisa
Este artigo aprofunda os principais temas discutidos no Atualiza & Revisa, disponível no Podcast IDEG. Para revisar com mais fluidez, ouça o episódio completo nas plataformas de áudio.
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Material complementar
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👉 Revisão para o CACD na reta final
A Copa do Mundo pode ser mais do que um evento esportivo: para quem estuda para o Instituto Rio Branco, ela oferece uma oportunidade de revisar conceitos, casos históricos e temas contemporâneos com alto potencial de cobrança.
Estamos juntos na sua preparação para o CACD.