
O Ártico na geopolítica contemporânea: recursos, rotas marítimas e competição entre grandes potências
Ártico: geopolítica, recursos e novas rotas
O Ártico na geopolítica contemporânea tornou-se um tema cada vez mais relevante para compreender as transformações da ordem internacional. Durante décadas, as condições climáticas limitaram a exploração econômica e a circulação marítima na região, mas o acelerado processo de degelo vem modificando esse cenário e ampliando o interesse dos Estados por recursos naturais, novas rotas comerciais e posições estratégicas. Para a Política Internacional, o Ártico permite relacionar mudanças climáticas, segurança internacional, Direito do Mar, energia, minerais críticos e competição entre grandes potências.
Essa transformação ajuda a explicar o crescente interesse de Estados Unidos, Rússia e China, bem como a preocupação dos países europeus e da OTAN com a segurança do chamado Alto Norte. No centro dessas dinâmicas está a Groenlândia, cuja localização entre a América do Norte, o Atlântico Norte e o Ártico, somada às suas reservas minerais e à sua importância militar, faz da ilha um dos principais pontos de convergência da disputa estratégica na região.
Para compreender esse processo, vale recuperar a formação histórica do espaço ártico, observar como a região adquiriu importância militar durante a Guerra Fria e, em seguida, analisar de que maneira o degelo vem alterando as possibilidades de navegação, exploração de recursos e projeção de poder.
Entenda a importância histórica do Ártico
O Ártico corresponde à região situada em torno do Polo Norte e não constitui um território submetido à soberania de um único Estado. Diferentemente da Antártida, o espaço ártico reúne áreas terrestres pertencentes a Estados soberanos e extensas áreas marítimas submetidas ao regime internacional do Direito do Mar. Oito países possuem territórios dentro do Círculo Polar Ártico: Rússia, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia e Finlândia.
A Rússia possui a maior extensão territorial no Ártico e concentra uma parcela significativa da população da região. Aproximadamente metade da população mundial do Ártico vive em território russo, o que contribui para que Moscou tenha uma presença econômica, demográfica e militar particularmente relevante no espaço ártico. Ao mesmo tempo, a região é habitada por diversos povos indígenas, entre eles os inuítes, os sámi e diferentes povos indígenas da Sibéria, cujos direitos, modos de vida e relação com o território também são afetados pelas transformações ambientais e econômicas.
Durante muito tempo, as condições climáticas extremas dificultaram a ocupação, a exploração de recursos e a circulação marítima. Com o avanço tecnológico e, sobretudo, com a importância estratégica adquirida pela região ao longo do século XX, essa realidade começou a mudar. O Ártico passou gradualmente de uma área marcada pelo isolamento geográfico para um espaço relevante nas disputas de segurança entre as principais potências.
O Ártico durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria
A posição geográfica do Ártico ganhou importância militar durante a Segunda Guerra Mundial, quando a região passou a desempenhar um papel relevante na circulação entre a América do Norte e a Europa e nas operações navais e aéreas. A sua importância aumentaria ainda mais durante a Guerra Fria, quando a proximidade entre Estados Unidos e União Soviética transformou o Polo Norte em uma possível rota para bombardeiros estratégicos e mísseis balísticos intercontinentais.
Essa dimensão militar permanece presente na atualidade. Estados Unidos e Rússia continuam separados, no extremo norte do Pacífico, pelo Estreito de Bering, enquanto a Groenlândia e a Islândia ocupam posições estratégicas entre a América do Norte e a Europa. A importância militar da Groenlândia, por sua vez, não é uma novidade: durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estabeleceram presença militar na ilha e, posteriormente, durante a Guerra Fria, sua localização favoreceu a instalação de sistemas de vigilância e defesa norte-americanos.
Por que a Groenlândia é tão estratégica?
A Groenlândia ocupa atualmente uma posição central na disputa geopolítica pelo Ártico. Embora seja um território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca, sua localização a coloca entre a América do Norte, a Europa e o espaço ártico, próxima de importantes rotas marítimas e aéreas. Além disso, mais de 80% de sua superfície é coberta por gelo e, apesar da população reduzida, a ilha possui recursos minerais que podem ganhar importância com a transição energética e a competição tecnológica.
Entre esses recursos estão minerais críticos e terras raras, utilizados na produção de equipamentos eletrônicos, tecnologias digitais, sistemas de defesa e tecnologias associadas à transição energética. A questão adquire dimensão ainda maior diante da concentração da produção e do processamento de terras raras na China, o que faz com que Washington tenha interesse em diversificar suas cadeias de suprimento e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Foi nesse cenário que Donald Trump voltou a manifestar interesse na incorporação da Groenlândia aos Estados Unidos, retomando uma ideia que já havia sido apresentada durante seu primeiro mandato, em 2019. Embora a proposta tenha provocado forte reação política, ela também chamou atenção para algo que antecede a administração Trump: a posição da Groenlândia já fazia da ilha um elemento importante da estratégia norte-americana de segurança no Atlântico Norte.
Groenlândia e a Lacuna GIUK
A dimensão estratégica da Groenlândia fica ainda mais evidente quando se observa sua relação com a chamada Lacuna GIUK, formada pelo espaço marítimo entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido. A passagem possui grande importância para a segurança do Atlântico Norte porque conecta o espaço ártico às rotas marítimas que conduzem à Europa e pode ser utilizada por navios e submarinos que transitam entre essas áreas.
Durante a Guerra Fria, a OTAN utilizou a região para acompanhar a movimentação de submarinos soviéticos e monitorar possíveis incursões no Atlântico Norte. Atualmente, a preocupação voltou a ganhar força diante da modernização das capacidades militares russas e da aproximação entre Moscou e Pequim. Assim, o valor estratégico da Groenlândia não depende apenas de seus recursos naturais: sua posição também favorece a vigilância e a defesa das conexões entre o Ártico, o Atlântico Norte e a América do Norte.
O retorno da competição entre Rússia e OTAN
A atual competição no Ártico também precisa ser analisada à luz da deterioração das relações entre a Rússia e os países ocidentais. A invasão da Ucrânia, iniciada em 2022, transformou profundamente o ambiente de segurança europeu e teve reflexos no Alto Norte, especialmente após a entrada de Finlândia e Suécia na OTAN. Com isso, sete dos oito Estados árticos passaram a integrar a Aliança, enquanto a Rússia permanece como o único Estado ártico fora da organização.
A OTAN passou a tratar o Ártico e o Alto Norte como espaços cada vez mais importantes para sua segurança coletiva e, em fevereiro de 2026, lançou a atividade Arctic Sentry, voltada ao reforço da dissuasão e da defesa na região. A Aliança também chama atenção para a expansão das capacidades militares russas no Ártico, incluindo novas instalações, estruturas de comando e sistemas de armas, ao mesmo tempo em que acompanha com preocupação o crescimento da presença chinesa e da cooperação sino-russa.
Essa transformação também se manifesta no flanco nordeste da Aliança. Em junho de 2026, a OTAN iniciou uma presença multinacional de forças terrestres na Finlândia, reforçando sua capacidade de atuação no Alto Norte. Dessa maneira, o Ártico passou a ocupar uma posição ainda mais próxima das preocupações centrais da segurança europeia.
A Rússia e a militarização do Ártico
A Rússia possui uma vantagem geográfica singular no Ártico, já que concentra a maior extensão territorial ártica e uma parcela expressiva do litoral do Oceano Ártico. Moscou também construiu uma extensa infraestrutura econômica e militar na região, articulando interesses de segurança, exploração de recursos e controle das rotas marítimas.
Um dos principais elementos dessa estratégia é a Rota Marítima do Norte, que acompanha a costa russa e conecta o Atlântico Norte ao Pacífico através do Oceano Ártico. O desenvolvimento dessa rota permite à Rússia transformar sua posição geográfica em uma vantagem econômica e estratégica, ao mesmo tempo em que reforça sua capacidade de exercer influência sobre uma das principais vias de circulação que podem ganhar importância com o avanço do degelo.
A ascensão da China no Ártico
A China não possui território dentro do Círculo Polar Ártico, mas isso não impediu Pequim de incorporar a região à sua estratégia internacional. Em 2018, o governo chinês publicou sua política oficial para o Ártico e passou a utilizar a expressão “Estado quase ártico” para caracterizar sua posição e justificar uma participação mais ativa nos assuntos da região.
A estratégia chinesa combina pesquisa científica, investimentos, infraestrutura, energia, mineração e transporte marítimo. Nesse processo, a chamada Rota da Seda Polar, vinculada à Iniciativa do Cinturão e Rota, ganhou espaço como instrumento para ampliar a participação chinesa nas novas possibilidades econômicas abertas pelo Ártico.
O interesse de Pequim também está relacionado à possibilidade de diversificação das rotas comerciais entre a Ásia e a Europa. Em determinadas condições, as rotas setentrionais podem reduzir a distância e o tempo de transporte em comparação com trajetos tradicionais que passam pelo Oceano Índico, pelo Canal de Suez e pelo Mediterrâneo, embora os custos, as condições climáticas e as limitações de infraestrutura ainda imponham restrições importantes.
A Rota Marítima do Norte e o comércio global
O processo de degelo vem criando novas possibilidades para a navegação no extremo norte, entre elas a Rota Marítima do Norte, a Passagem Noroeste e, potencialmente, futuras rotas transpolárias. Isso não significa, contudo, que o Ártico tenha se transformado em uma via marítima convencional: a presença de gelo, as condições climáticas extremas, a escassez de infraestrutura portuária, a necessidade de embarcações especializadas, os custos de seguro e as restrições ambientais continuam impondo obstáculos significativos.
Ainda assim, a transformação já produz efeitos concretos. Em agosto de 2026, uma empresa chinesa iniciou um serviço regular de transporte de contêineres para a Europa através do Ártico, utilizando a Rota Marítima do Norte ao longo da costa russa e planejando saídas semanais durante aproximadamente sete semanas. A experiência anterior, realizada em 2025, levou um navio de Ningbo, na China, a Felixstowe, no Reino Unido, em cerca de 20 dias, aproximadamente metade do tempo estimado para a rota tradicional pelo sul.
O movimento possui significado que ultrapassa a dimensão comercial. À medida que as condições ambientais modificam a geografia da navegação, novas rotas passam a produzir consequências econômicas e estratégicas, alterando o valor de determinados territórios e aproximando o debate climático das questões tradicionais de comércio e poder.
O paradoxo do degelo: oportunidade econômica e risco ambiental
O degelo do Ártico produz um paradoxo particularmente importante para a política internacional. Por um lado, a redução da cobertura de gelo pode facilitar a navegação, ampliar o acesso a recursos naturais e diminuir distâncias entre determinados mercados; por outro, o próprio processo que cria essas oportunidades resulta do aquecimento do planeta e ameaça ecossistemas e comunidades que dependem diretamente das condições ambientais da região.
O aumento da navegação pode ainda produzir novos impactos ambientais. A emissão de carbono negro por embarcações, por exemplo, pode contribuir para acelerar a absorção de radiação solar sobre superfícies cobertas por neve e gelo, reforçando o processo de aquecimento. Além disso, a expansão da atividade marítima eleva os riscos de poluição, acidentes, derramamentos de petróleo e perturbação dos ecossistemas.
Por isso, a abertura de novas rotas não deve ser analisada apenas como oportunidade comercial. O caso do Ártico demonstra como mudanças climáticas e geopolítica estão cada vez mais interligadas, já que alterações ambientais podem modificar simultaneamente as condições de segurança, comércio, exploração de recursos e projeção de poder dos Estados.
Recursos naturais e minerais críticos
O interesse pelo Ártico também está relacionado à disponibilidade de recursos naturais. A região possui importantes reservas de petróleo e gás natural, além de depósitos minerais, e estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos apontam para uma quantidade expressiva de petróleo e gás ainda não descobertos no espaço ártico.
Entretanto, a competição contemporânea vai além dos combustíveis fósseis. A transição energética aumentou a demanda por minerais críticos, utilizados em baterias, equipamentos eletrônicos, sistemas de energia renovável e tecnologias de defesa. Nesse cenário, as reservas minerais da Groenlândia assumem importância adicional, especialmente diante da competição tecnológica entre Estados Unidos e China.
Para Washington, ampliar o acesso a minerais críticos pode ajudar a reduzir vulnerabilidades decorrentes da dependência das cadeias produtivas chinesas. Para Pequim, participar de projetos de mineração e infraestrutura no Ártico representa, por sua vez, uma oportunidade de ampliar sua presença econômica e estratégica em uma região de crescente importância.
O Conselho do Ártico e os limites da cooperação
A competição entre grandes potências convive, ainda, com mecanismos de cooperação regional. Criado em 1996, o Conselho do Ártico reúne os oito Estados árticos e conta também com importante participação de representantes dos povos indígenas. Sua agenda tradicional concentra-se em temas como meio ambiente, desenvolvimento sustentável, ciência e cooperação regional.
A invasão russa da Ucrânia, contudo, alterou profundamente o funcionamento político do organismo. As reuniões políticas de alto nível permanecem suspensas desde 2022, embora grupos de trabalho e atividades técnicas tenham continuado em diferentes formatos. O caso revela uma característica importante da ordem internacional contemporânea: a competição estratégica pode limitar a atuação política de instituições de cooperação sem necessariamente impedir a continuidade da cooperação técnica.
Rússia e China: uma aproximação estratégica no Ártico
Um dos aspectos mais importantes da dinâmica atual é a aproximação entre Rússia e China. Os dois países possuem interesses que, em diversos setores, são complementares: enquanto a Rússia dispõe de território, recursos naturais, infraestrutura e capacidade operacional no Ártico, a China possui capital, tecnologia, capacidade industrial e elevada demanda por energia e matérias-primas.
Essa complementaridade favorece projetos conjuntos nas áreas de energia, mineração e transporte marítimo e, ao mesmo tempo, preocupa os Estados Unidos e a OTAN. A própria Aliança considera que a intensificação da cooperação entre Moscou e Pequim possui implicações para sua postura de dissuasão e defesa no Ártico.
É preciso, contudo, evitar a interpretação de que Rússia e China formam uma aliança militar formal destinada a controlar o Ártico. O que se observa é uma aproximação estratégica e econômica crescente, capaz de ampliar a capacidade de ambos os países de atuar em uma região que, durante boa parte do período pós-Guerra Fria, esteve marcada por dinâmicas predominantemente euro-atlânticas.
A geopolítica do Ártico nos estudos para o CACD
A propósito, nos cursos do IDEG, as transformações na geopolítica do Ártico são estudadas sob uma perspectiva integrada:
Política Internacional – O professor e diplomata Thomaz Napoleão analisa o equilíbrio de poder entre os EUA, a Rússia e a China. Além disso, o docente discute a atuação da OTAN e a diplomacia das grandes potências.
Direito Internacional Público – O professor e diplomata Pedro Sloboda explica a aplicação da CNUDM nas regiões polares. De fato, o professor detalha as alegações de plataforma continental estendida e a governança do Conselho do Ártico.
Geografia – O professor Thiago Rocha aborda a geopolítica dos recursos naturais, as rotas transpolaras e as consequências das mudanças climáticas globais. Igualmente, o docente examina o valor estratégico da Lacuna GIUK e da Groenlândia.